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Pai solteiro: um desafio em tempo integral

Os homens também buscam se reestruturar frente às imposições construídas socialmente, e entre elas, a atuação no papel de pai.

10/09/2019 12h51
Por: Fabrício Vieira
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Fábio Fichtner assumiu sozinho a criação de Isabela e Enzo desde que perdeu a esposa, há três anos.
Fábio Fichtner assumiu sozinho a criação de Isabela e Enzo desde que perdeu a esposa, há três anos.

Em um momento onde o mundo vive a reafirmação da liberdade, os homens também buscam se reestruturar frente às imposições construídas socialmente, e entre elas, a atuação no papel de pai. Ao finalizar o mês de agosto, dedicado aos pais, decidimos contar uma história de paternidade que é recheada de resistência, esperança, amor e o mais importante: respeito e responsabilidade.

Provavelmente, o termo “mãe solteira” é muito mais comum de se ouvir do que “pai solteiro” e ainda causa estranhamento para muitas pessoas um homem criando os filhos sozinho, independente do motivo. Nascido no Rio de Janeiro, mas morador de Porto Alegre há 20 anos, o empresário Fábio Fichtner, 41 anos, vive essa situação desde 2016, quando ficou viúvo e passou a cuidar sozinho de Isabela, 8 anos, e Enzo, 4 anos – a esposa, Lina, faleceu vítima de um câncer de pele.

Em meio a um dia-a-dia corrido, o empresário dá conta de todas as tarefas, que não mudaram muito com a perda da mãe das crianças, afinal ele já era responsável por parte dessa rotina. “Eu saía cedo pra trabalhar, então o café da manhã com minha filha sempre foi meu”, explica. “E quando eu chegava à noite, dar janta, banho e colocar para dormir também eram comigo, até porque não almoçava com eles e nem levava para o colégio. Isso se mantém igual até hoje.”

Fábio recorda que o casal formava uma boa dupla. A chegada de um segundo filho resultou em muita alegria e na mudança para um apartamento com melhor infraestrutura. Mas uma notícia mudaria para sempre o destino da família: cinco dias após a escolha do imóvel, Lina recebeu o diagnóstico positivo de melanoma.

“Provavelmente a doença havia evoluído durante a gravidez”, diz o empresário. “Isso dificultou muito, porque demorou para a identificação da doença e, quando soubemos, ela já estava com o problema há muito tempo. Então também acho que era mesmo para a gente se mudar, porque se tivesse sido cinco dias antes, eu não teria feito. E nós somos muito mais felizes onde moramos hoje.”

Quanto ao tratamento, ele considera que não foi tão sofrido, se comparado a outros tratamentos de câncer. “Ficamos em casa a maior parte do tempo, ela fez cirurgia, retirou nódulos. Tudo não durou pouco mais que um ano: “Descobrimos no dia 7 de julho de 2015 e ela faleceu no dia 27 de julho de 2016. E aí fiquei sozinho com as duas crianças, mas com certeza elas me ajudaram a superar a perda dela”.

Fábio destaca que as coisas aconteceram naturalmente desde então. Algumas coisas, porém, ficaram para trás, como as trilhas, campeonatos de kart e saltos de paraquedas. “Não sei se estou certo, mas fiz essa escolha e não me arrependo”, avalia. “Abri mão de certas coisas, mas não sofri com isso, porque sabia que era momentâneo, porque eles crescem e uma hora vão deixar de estar comigo.”

E como suprir a questão emocional da presença materna, ligada a segurança, aconchego, orientação e refúgio? Fábio segue o ditado segundo o qual “Deus não dá cruz para quem não consegue carregar”. O empresário também observa que o caçula, pela pouca convivência com a mãe, não sente tanto a falta dela e lida mais facilmente com essa ausência. “O Enzo olha uma estrela no céu e diz que é a mamãe.”

Já a Bela nunca chorou a perda. “Já fiquei angustiado com isso, mas ao mesmo tempo não há o que se fazer”, afirma o pai. “Ela perdeu a mãe, um ano depois o avô e, nesse meio tempo, também quase morreu. É uma guerreira que me dá muita força e ainda ajuda com o Enzo. Com ela cada dia mais eu quero ser mais relaxado, mais frouxo, dar menos bronca. É muito mais fácil pra mim com eles do que sem eles.”

O que a paternidade significa pra ti e no que ela o melhorou? 

“Todo mundo que fala em ser pai eu mando uma mensagem e digo que a melhor coisa em ser pai é descobrir o significado de amor incondicional. A gente não sabe o que é isso até ter um filho. E sobre o segundo questionamento, eu acho que ninguém fica melhor ou pior por se tornar pai, mas descobre talentos diferentes. Sempre fui a mesma pessoa. Faço terapia para me tornar uma pessoa melhor e corrigir meus erros, mas não sou uma pessoa melhor apenas por ter filhos. Eu já era muito certinho”.

Algo na paternidade lembra o seu pai?

“Não. Eu sempre amei muito o meu pai, mas por alguma razão nunca foi fácil a nossa convivência. Mas eu sempre quis morar com o ele, pois ele estava em Porto Alegre e eu no Rio de Janeiro. Eu tinha uma relação afetiva, mas a família dele é de origem alemã, durona, fria, com dificuldade de externar sentimentos. Na verdade, aprendi que eu queria ser o contrário dele”.

“A gente acorda, eu e meus filhos, e é beijo, abraço e “eu te amo”. E eu não lembro do meu pai dizer isso. Sei que ele me amava e ajudava muito. Quando a Lina faleceu, a gente ficou mais unido, mas próximo, eu era sócio dele, 20 anos acordando, almoçando e trabalhando junto. Ficou, para mim, a certeza de que ele estaria lá comigo quando eu precisasse”.

Como fica o seu próprio espaço?

“Agora que as crianças estão maiores é mais fácil para mim retomar as minhas coisas. Ao menos em um final de semana por mês, eu tiro um dia para mim. Hoje eles dormem com os avós. Eu sinto falta deles, é dolorido, mas aí eu aproveito para fazer uma atividade”.

O que seria bacana de ouvir deles daqui a alguns anos?

“Que a gente é amigo e que cumpro as coisas que prometo a eles. Quero poder ser menos pai e mais amigo. E que eles me contem as coisas e me queiram por perto”.

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