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Comportamento

Com crescimento de apps de transporte e serviços online, estacionamentos no centro de Porto Alegre perdem clientela

Sindicato que representa categoria estima redução de 25% no movimento nos últimos três anos

09/09/2019 13h36Atualizado há 1 semana
Por: Fabrício Vieira
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Estacionamento na Alberto Bins reduziu mensalidade de R$ 350 para R$ 235
Estacionamento na Alberto Bins reduziu mensalidade de R$ 350 para R$ 235

Como reflexo de mudanças econômicas e comportamentais, as garagens rotativas do centro de Porto Alegre não lotam mais como em outros tempos — a região concentra 126 dos 1.048 estabelecimentos da cidade. De acordo com o Sindicato das Empresas de Garagens, Estacionamentos, Limpeza e Conservação de Veículos do RS (Sindepark-RS), a queda de 25% nos últimos três anos tem como causa o maior número de serviços que podem ser feitos pela internet e o crescimentos dos aplicativos de transporte. 

— A geração atual, por exemplo, demora mais tempo para tirar carteira (de habilitação) e muitos nem querem ter carro. E tem a concorrência do transporte por aplicativo, obviamente, desde 2015 — afirma o presidente da entidade, Francisco Nora. — Há garagens que perderam até metade dos clientes pelo fechamento de empresas no Centro — acrescenta.

Há mais de uma década trabalhando no Edifício Noma, construção com sete andares na esquina da Avenida Alberto Bins com a Rua Pinto Bandeira, o manobrista Carlos Ferreira, 53 anos, afirma que o normal era o estacionamento com 148 vagas lotar:   

— Todo dia, a gente tinha que colocar cones para fechar a entrada e mandar para outras garagens. Agora, as pessoas vêm de aplicativo e descem na porta da firma.

Na tentativa de frear a perda de mensalistas, o valor por uma vaga fixa foi reduzido de R$ 350 para R$ 235. Mesmo assim, em três anos, a empresa perdeu 40% dos clientes e reduziu pela metade o quadro de funcionários.

Outro estacionamento que teve de mexer nos preços foi o Shalom, construído na Avenida Independência em 1968 pelo pai de Carlton Zilz, 53 anos.

— Cobrávamos R$ 40 a diária. Hoje, o valor máximo é R$ 25, mesmo que a pessoa fique 24 horas. É o bom senso — explica o proprietário do prédio de 12 andares com 335 vagas, que nos anos 1990 chegou a ter bombas de gasolina e álcool.

O Estacionamento Unipark, que existe há 18 anos na Avenida Júlio de Castilhos, ameniza a redução do movimento por meio de um convênio. Como é em frente à Igreja Universal do Reino de Deus, os fiéis estacionam de graça — o valor é acertado mensalmente pela administração do templo evangélico.

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Cerca de 80% das quase cem vagas são ocupadas pelos religiosos. Mas o proprietário Leocir Domingos Pertuzzatti, 57 anos, teve de reduzir os custos e congelar os preços, pois durante o dia o volume de veículos não ocupa os dois andares:

— Tínhamos quatro manobristas, que não paravam de trabalhar. Hoje, são dois e sobra tempo até para o cafezinho. A inflação sobe e eu não mudo o preço há três anos.

Com três garagens nas proximidades da rodoviária, Cláudio Da Silva Dias, 57 anos, diz enfrentar o pior momento nos 15 anos em que gere os espaços:

— Caiu mais de 40%. Pago aluguel em dois dos prédios, tenho funcionários, imposto e não posso subir o valor, que já é um dos mais baratos — compara, diante de uma tabela de preços que oferta 30 minutos por R$ 5. — Antes, a pessoa descia, jogava a chave e saía correndo para o banco. Hoje, ela paga tudo pelo celular.

As placas no Centro expõem valores que vão de R$ 5 a R$ 25 a hora, dependendo da localização e da oferta de vagas na rua. O presidente do Sindepark reforça que os proprietários trabalham com margens apertadas e que enfrentam ainda a concorrência dos trabalhadores informais:

— Manter a operação é difícil, porque a demanda diminuiu. Não é ganância. É desleal o que os ilegais fazem: pegam um terreno e colocam uma placa de R$ 5, mas não pagam seguro, não têm funcionários, não pagam para a prefeitura.

Para o empresário, a alternativa para alguns locais tem sido maior investimento em automação:

— O futuro é o estacionamento digital. Maior produtividade, menos custos. Mas não é só isso: é a facilidade e a agilidade para o cliente, que faz tudo pelo aplicativo, desde a reserva até entrar e sair da garagem.

Queda do movimento impacta os trabalhadores

O manobrista Acelino de Guimaraes Luís, 66 anos, trabalha no Edifício Garagem Alfa, na Rua Comendador Manoel Pereira, desde 1996. Ele conta que até a carga horária já foi reduzida pela falta de demanda:

— Trabalhava das 7h às 19h. Agora, às 16h já estou indo embora. Em 23 anos, nunca vi uma crise igual.

A poucos metros, na mesma rua, o prédio Comendador — hoje ocupado pela Garagem 56 — exibe na fachada vagas rotativas e box mensal. Porém, o espaço será desativado no final do mês.

— Já comunicamos os 120 e poucos mensalistas para procurarem outro estacionamento na volta. Tem cliente que estaciona aqui há mais de 30 anos — conta um atendente, que pediu para não ser identificado.

Manobristas e atendentes de estacionamentos são representados pelo Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo (Sitramico-RS). O vice-presidente da entidade, João Batista, também coloca as mudanças no mercado na conta dos apps de transporte:

— Reduz o quadro de funcionários e estoura no trabalhador. A situação dos estacionamentos de rua, porém, é diferente da situação dos shoppings, onde as pessoas continuam indo de carro.

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